Uma Aventura

E outras coleções

Uma Aventura no Deserto

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Arlindo Fagundes

Editorial Caminho
Coleção , nș21
304 pp
sob consulta

Resumo/Apresentação

Um passeio de barco acaba mal: arrastados para sul, vão parar à costa de África e quando o barco afunda são todos arrastados para um areal que é nada mais nada menos do que a entrada para o deserto do Sara. O grupo está exausto, quase morre de sede, salva-se graças à intervenção dos tuaregues, os homens azuis do deserto. A longa caminhada rumo ao oásis mais próximo não é nada fácil, mas o pior será enfrentar bandidos que ocupam um palácio de lama, se alimentam de cabeças de cabra e não hesitam em fazer desaparecer quem se lhes opõe.

 

Vê aqui as fotografias que as autoras tiraram durante a pesquisa para esta Aventura!

 

ISBN/ 9789722100205

Excerto do Livro

«À medida que avançavam pelo deserto é que foram percebendo bem o sentido da frase dita por Mamoun. Para onde quer que se virassem, era areia e mais areia a perder de vista! Alternavam-se extensões planas e pedregosas com dunas de vários tamanhos e feitios, alisadas pelo vento, mas terminando sempre em aresta.     

Durante horas e horas não viram outra coisa. O sol a pique aquecia a atmosfera e a terra, de modo que era como se estivessem no centro de uma bola de calor. Ao princípio foi muito difícil caminharem descalços, à torreira, mas não há dúvida de que o homem habitua-se a tudo! No entanto, ficou bem claro que quem perdesse o controlo e se pusesse a correr, puxando demais pelo corpo, depressa cairia para o lado meio morto. Ali, não havia de facto lugar a pressas. Homens e bichos tinham de se integrar no ritmo do deserto, um ritmo lento, pousado, regular.     

Suando em bica, o Pedro perguntou a si próprio como é que aquela gente não se perdia, pois a paisagem não tinha pontos de referência.     

— Já reparaste, Chico? Aqui não é possível dizer assim "a seguir à terceira duna, vire à esquerda"!     

— Pois não! Como não há princípio nem fim, nenhuma duna é a terceira...     

O João meteu-se na conversa.     

— E além disso, quando sopra o vento as dunas devem mudar de feitio!     

Foi a vez de Mamoun explicar:     

— Pois mudam, mas para nós não há qualquer problema. Conhecemos o caminho, temos os nossos pontos de referência e orientamo-nos pelas estrelas. Mas o Sara, para quem não nasceu cá, é perigoso! O ano passado houve um turista francês que resolveu meter-se por aqui adentro sem guia e nunca mais ninguém o viu. Até o procuraram de helicóptero e nada! Perdeu-se.     

— Coitado! Ainda estará vivo?     

— É pouco provável! Já passou tanto tempo!     

Aquela história fê-los caminhar em silêncio um bom bocado, imaginando com um aperto no coração o pobre homem às voltas, perdido naquele areal imenso, igual e silencioso. Por mais que gritasse por socorro, ninguém o ouvia. E, a menos que tivesse ido parar a um oásis, estava condenado a morrer à fome e à sede pois não havia água nem comida em parte alguma.     

— Que horror! — murmurou o João, segurando instintivamente a coleira do Faial, não fosse ele perder-se também.     

— Sabem — disse de novo Mamoum — por causa desse francês a polícia marroquina fez uma barreira ali perto de Mahamid, e não deixam ninguém entrar nesta zona do deserto sem autorização especial e sem um guia!     

— Acho muito bem. Escusa de se perder mais gente!     

Um som rouco e abafado interrompeu-os. Os camelos pararam instantaneamente e os homens também, assim que ouviram o sinal da flauta tuaregue. Era um instrumento de metal, leve e estreitinho, muito comprido, cuja ponta se abria numa espécie de corneta.     

Para grande espanto dos rapazes, toda a gente começou a esfregar as mãos na areia. Depois a cara. E depois os pés!»

(in Uma Aventura no Deserto, pp. 66-68)